O design ou a galinha?

Dia destes, me vi fuçando no Google e percebi que mesmo o Raio X não estando no ar já há alguns anos, este texto que segue logo abaixo estava circulando e sendo utilizado por várias pessoas, inclusive em cursos de graduação em Design. Achei legal publicar novamente por aqui.

É um texto do professor Silvio Romero Barreto Campelo, lá do Departamento de Design da UFPE escrito ainda nos idos de 2002 (ou 2003, não lembro), quando ele estava fazendo doutorado na inglaterra.

por Silvio Barreto Campello

Estava eu aqui por essas bandas do Hemisfério Norte, quando chegou e-mail do Caparica, pedindo algumas linhas pro raio-x. Perguntei o que seria interessante e ele sugeriu um tema: Design é Arte? Ui! Filosofia a essa hora da noite… pensei. Mas não me intimidei. Enchi a banheira com espuma, peguei meu caderno de 200 fls pautadas, minha lapiseira Papermate e comecei a escrever mergulhado em água quente até o pescoço.

Design é Arte? Não sei se foi a água quente, mas lembrei do Cláudio Almeida: Afinal, o que é design? Reza a lenda que por mais que perguntasse – nos bares, nos n-designs ou na faculdade – Cláudio nunca conseguiu uma resposta satisfatória. Também pudera, esse enigma Design é Arte? Design é Técnica? Design é Ciência? persegue os estudantes de design desde priscas eras (desculpaí, Machado de Assis). Digo estudantes, não porque os profissionais sejam capazes de definir a atividade com palavras certeiras, mas porque estes sabem com certeza que design é aquilo que eles fazem.

Antes de seguir adiante, gostaria de esclarecer desde já que considero qualquer tentativa de encaixar a atividade de Design em uma definição objetiva, mero exercício intelectual bizantino. Na minha mais rotunda opinião, design é aquilo o que designers querem que design seja. Sei que isso parece o dilema do ovo e da galinha, mas que fazer? Mais do que incitar minha curiosidade pela questão do que venha a ser Design, a pergunta Design é Arte? me faz refletir sobre a profunda falta de identidade presente na comunidade de designers. Somente quem não sabe quem é seria capaz de se fazer essa mesma pergunta durante pelo menos 20 anos – período de tempo em que sou testemunha ocular da questão tomando as mais diversas formas. Acho que este tipo de dúvida não existe entre os engenheiros, médicos ou advogados. Profissões menos tradicionais como a dos radialistas também não a formulam. Por que a dúvida sobre a natureza da profissão de Design parece persistir tão longamente?

Acredito que a resposta em parte se encontra na forma como a profissão surgiu e se estabeleceu aqui no Brasil. Afora a Esdi, que foi fruto de uma ação deliberada e planejada, os cursos de design se proliferaram na esteira da reforma universitária levada a cabo pelo não tão saudoso Jarbas Passarinho. Durante a década de setenta o governo militar estabeleceu como meta a ampliação maciça de vagas nas universidades e implementou uma reforma com a costumeira sutileza militar. De uma hora para outra, zilhões de novos cursos foram criados e novas vagas oferecidas. Entre estes estavam os de Desenho Industrial e Programação Visual. Como conseqüência, novos profissionais de ninguém sabia exatamente o que começaram a chegar no mercado. Mal ou bem, esses profissionais com o tempo estabeleceram sua prática e passaram a ser reconhecidos pelo seu trabalho. Em certo sentido a profissão somente se firmou definitivamente com o advento do computador, quando graças aos softwares gráficos foi catapultada à condição de representante da vanguarda tecnológica. Em resumo, apesar de mais de 30 anos formalmente estabelecida no país, a profissão somente recentemente se estabeleceu.

Por outro lado, a gênese da profissão não é explicação suficiente. Se em parte explica as razões dessa busca constante por identidade, deixa de explicar por que ela ainda não foi superada. Acho que a natureza da atividade também é em parte responsável por isso. A prática do design é antes de tudo uma atividade de mediação. Uma mediação em diversos níveis: entre um abstrato e o concreto; uma idéia e a forma; entre o produtor e quem consome; entre produtor e produto. Essa natureza mediadora é acima de tudo um processo extremamente versátil, a ponto de haver quem diga que “design é tudo”. Definições clássicas de design como uma atividade planejadora, projetual e configurativa apenas embolam ainda mais o meio de campo, uma vez que muitas outras atividades também nelas se encaixam. Daí o porque da pergunta Design é Arte? Não deixa de ser, mas na verdade não é. Se fosse Arte, não seria Design. Mas afinal, como já dizia o Almeida, o que é Design?

No fundo o que falta aos profissionais do design é apenas coragem. Coragem de dizer design é isso ou aquilo. E pronto. O truque está em não apenas dizer, mas agir como se fosse, acreditar que é. E se ainda sobrar um pouco de coragem, ser afoito a ponto de dizer o que mais se quer que seja. Em outras palavras, daqui a dez anos, o que é que nós queremos que o design seja?

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