Vivemos em uma era em que frases como “seja você mesmo” ou “você é o único responsável pela sua felicidade” soam naturais, quase óbvias. No entanto, essa ênfase no indivíduo como centro da experiência humana não é universal — tampouco atemporal. Podemos compreender que ela é produto de uma construção histórica e cultural complexa, profundamente enraizada na civilização ocidental moderna e impulsionada por sistemas como o cristianismo reformado e o capitalismo.
O individualismo, como o conhecemos hoje, emergiu de um conjunto de transições profundas. Na Grécia antiga, os filósofos já valorizavam a introspecção e a razão individual, mas sempre dentro do contexto da polis. No cristianismo, principalmente após a Reforma Protestante, consolidou-se a ideia de que cada pessoa tem acesso direto a Deus e é responsável por sua própria salvação — um deslocamento decisivo do coletivo religioso para a fé individual (Taylor, 1989).
O século XVIII intensificou esse movimento com o Iluminismo, ao apresentar o sujeito racional como o centro da moralidade e do conhecimento. Já no século XIX, o surgimento do capitalismo liberal, conforme analisado por Max Weber (1905)des, colocou o desempenho individual no cerne das estruturas econômicas: o mérito, o esforço, a propriedade, e a liberdade de empreender tornaram-se os pilares de uma nova ética social.

Contudo, esse modelo não é universal. Em diversas culturas orientais, como nas tradições confucionistas ou budistas, o “eu” é pensado de forma relacional, fluida e muitas vezes ilusória. A identidade não se define pelo desejo ou pela autenticidade interior, mas pela capacidade de cumprir papéis sociais e manter a harmonia coletiva (Dumont, 1983; Ames & Hall, 2001). Enquanto no Ocidente buscamos a autoexpressão, no Oriente busca-se muitas vezes a autossuperação — um apagar do ego em nome do coletivo ou da iluminação.
Nas religiões de matriz africana ou em cosmovisões indígenas, a ideia de indivíduo tampouco ocupa o centro. A identidade está entrelaçada com ancestralidade, natureza, rituais e comunidade. A existência individual se justifica dentro de um tecido espiritual coletivo, onde o equilíbrio entre forças é mais importante que a autoafirmação.

A diferença não está apenas no conteúdo das crenças, mas na própria estrutura da subjetividade. Charles Taylor, em As Fontes do Self, argumenta que o Ocidente moderno construiu um tipo específico de “eu interior”, voltado à autorreflexão, autenticidade e autonomia — um “self” que não apenas vive no mundo, mas pretende transformá-lo a partir de suas escolhas pessoais.
Em contraste, nas culturas que priorizam o coletivo, o “eu” não é tanto um ponto de origem quanto um nó em uma teia de relações. A espiritualidade, a moralidade e a identidade fluem de forma coletiva. Nesse sentido, a pergunta “quem sou eu?” seria, em muitos desses contextos, substituída por “a quem pertenço?” ou “como estou conectado?”

Refletir sobre a historicidade do individualismo nos ajuda a relativizar muitas das crenças que tratamos como naturais. A valorização do indivíduo é uma conquista, sim, mas também uma armadilha quando se torna o único horizonte possível. Em tempos de crise ambiental, solidão urbana e fragmentação política, talvez seja hora de revisitarmos outras formas de ser — menos centradas no eu e mais abertas ao nós. Talvez, caiba aqui um pouco de Modernidade Líquida, do Bauman.